Controle de versão distribuído é diferente, mas nem tanto
Não há dúvidas de que o controle de versão distribuído (Distributed Version Control System – DVCS) veio não só pra ficar, mas também para tomar o lugar das ferramentas de controle de versão centralizado. As etapas têm sido as mesmas de quando apareceu o Subversion com a proposta de substituir o CVS: 1. desconfiança, 2. curiosidade, 3. interesse, 4. aceitação.
Quem está tendo o primeiro contato com o DVCS geralmente cai na fase 1 (desconfiança). Não conhece como funciona e, por isso, desconfia. Afinal, se funciona do jeito que está (mesmo que não muito bem), pra que mudar?
O pessoal da fase 2 (curiosidade) já leu algo a respeito e está intrigado com as vantagens que “dizem” que o DVCS tem. Mas ainda falta um empurrãozinho para pelo menos tentar experimentar um DVCS pra ver como é.
O objetivo deste artigo é apresentar um experimento simples e rápido mostrando que o modo de trabalho de um DVCS, especificamente o Mercurial, não muda tanto assim do usado no Subversion. Espera-se com isso, levar o leitor mais perto da fase 3: interesse.
O experimento simulará dois usuários trabalhando no mesmo projeto, executando algumas operações bem comuns e básicas de controle de versão através do Mercurial, comparando sempre com o mesmo passo feito pelo Subversion.
Para aproveitar melhor o experimento, é necessário:
- saber os conceitos básicos do controle de versão distribuído;
- instalar o Mercurial ou o TortoiseHg na sua máquina;
- já ter usado o Subversion e ter ele ou o TortoiseSvn instalado na máquina;
Observação: O experimento será apresentado com operações pela linha de comando por questão de espaço e comodidade. O experimento pode ser feito também através das interfaces gráficas TortoiseHg e TortoiseSVN, que possuem os mesmos comandos usados no roteiro.
1. Preparando os Repositórios
Quando se sabe que no DVCS cada desenvolvedor tem um repositório e que um repositório pode se conectar com qualquer outro, logo se imagina que o modelo distribuído é uma anarquia. Na verdade, qualquer desenvolvimento sem regras vira uma bagunça. No modelo distribuído, os repositórios podem ser arranjados em várias topologias e a topologia cliente-servidor é uma delas.
Vamos criar 3 repositórios: um oficial, um para um user 1, e outro para o user 2, sendo esses dois últimos para simular os dois desenvolvedores. A convenção estabelece que não haverá comunicação direta entre o repositório dos desenvolvedores 1 e 2. Apenas através do repositório oficial, exatamente como acontece no modelo centralizado.
O acesso ao repositório oficial, tanto do Mercurial, quanto do Subversion, será feito por acesso local para manter o roteiro simples. No exemplo, será usado o diretório /tmp (que é o diretório temporário do linux) para manter todos os repositórios. Escolha um diretório que melhor lhe convier.
| Mercurial | Subversion |
|---|---|
| hg init /tmp/oficial | svnadmin create /tmp/oficial |
| hg clone /tmp/oficial /tmp/user1 hg clone /tmp/oficial /tmp/user2 |
svn checkout file:///tmp/oficial /tmp/user1 svn checkout file:///tmp/oficial /tmp/user2 |
2. Publicação Inicial
O próximo passo é fazer uma primeira publicação no repositório. Use um arquivo chamado numeros.txt que deverá ser criado no diretório do repositório/cópia de trabalho com o seguinte conteúdo:
um dois três
| Mercurial | Subversion | |
|---|---|---|
| user1 | hg add numeros.txt | svn add numeros.txt |
| hg status | svn status | |
| hg commit -m “primeiro commit” -u user1 | svn commit -m “primeiro commit” –username user1 | |
| hg push |
O Mercurial teve um passo adicional para enviar ao repositório oficial o que foi feito no repositório local.
3. Vendo o histórico do projeto?
| Mercurial | Subversion | |
|---|---|---|
| user1 | # é necessário atualizar a cópia de trabalho antes para ficar na última revisão svn update |
|
| hg log
changeset: 0:aa3f592139e5 |
svn log
————————————————————— |
Note que o Mercurial também fornece uma numeração sequencial além da identificação da revisão por hash. Esta numeração é válida apenas para o repositório local e foi criada por comodidade, para facilitar a referência a uma revisão em comandos locais, ao invés de se usar o identificador hash.
4. Atualização do Repositório do Usuário 2
O usuário 2 está com seu repositório desatualizado em relação ao repositório oficial. A sincronização se dá pelo comando hg pull -u que já atualiza a área de trabalho acoplada com a última revisão.
| Mercurial | Subversion | |
|---|---|---|
| user2 | hg pull -u | svn update |
5. Edição Concorrente
Usuários 1 e 2 executarão mudanças concorrentes no mesmo arquivo. user 1 acrescentará a palavra “zero” na primeira linha enquanto usuário 2 acrescentará “quatro” na última linha. Como as mudanças acontecerão em partes diferentes do mesmo arquivo, a mesclagem ocorrerá sem conflitos.
| Mercurial | Subversion | |
|---|---|---|
| user1 | # edita números.txt | # edita números.txt |
| hg diff | svn diff | |
| hg commit -m “zero” -u user1 | svn commit -m “zero” –username user1 | |
| hg push | ||
| user2 | # edita números.txt | # edita números.txt |
| hg diff | svn diff | |
| hg commit -m “quatro” -u user2 | svn commit -m “quatro” –username user2 # falha 1. Veja obs. |
|
| hg push # falha 2. Veja obs. |
||
| hg pull hg merge |
svn update | |
| hg commit -m “merge” -u user1 | svn commit -m “quatro” –username user2 | |
| hg push |
Descrição das falhas nas operações:
- O arquivo numeros.txt está desatualizado em relação à última revisão do repositório. É necessário atualizar/mesclar para que seja aceito.
- Por padrão, a operação de push não permite que um ramo fique com mais de uma ponta, isto é, tenha bifurcações após a combinação dos grafos de revisões. Qualquer linha individual de desenvolvimento deve ser antes unificada localmente com a linha presente no repositório-oficial antes de ser enviada.
6. Visualização do Grafo de Revisões
O histórico de revisões do DVCS é um grafo acíclico direcionado (Directed Acyclic Graph – DAG). Na interface gráfica, é possível ver os caminhos sendo bifurcados e reunificados. Pela linha de comando, é necessário antes habilitar o plugin do Mercurial que conseguir ver o grafo textualmente.
Edite o arquivo de configuração do repositório do usuário 2, cujo caminho é /tmp/user2/.hg/hgrc e adicione as seguintes linhas ao final
[extensions] hgext.graphlog =
| Mercurial | Subversion | |
|---|---|---|
| user2 | hg glog | svn log |
@ changeset: 3:3eddeb3252ea |\ tag: tip | | parent: 1:f01fe74e7279 | | parent: 2:c3664eb01670 | | user: user2 | | date: Sun Apr 18 22:06:03 2010 -0300 | | summary: merge | | | o changeset: 2:c3664eb01670 | | parent: 0:b353a0bdea31 | | user: user2 | | date: Sun Apr 18 22:05:21 2010 -0300 | | summary: quatro | | o | changeset: 1:f01fe74e7279 |/ user: user1 | date: Sun Apr 18 22:05:43 2010 -0300 | summary: zero | o changeset: 0:b353a0bdea31 user: user1 date: Sun Apr 18 22:04:40 2010 -0300 summary: primeiro commit
O grafo apresentado mostra que as revisões produzidas pelos usuários 1 e 2 formaram linhas independentes de desenvolvimento que depois foram reunificadas.
Conclusões
Usando o Mercurial na topologia cliente-servidor, com um repositório oficial equivalente ao repositório central do Subversion, nota-se que não há nenhuma grande mudança na forma do trabalho, nem nos comandos, que são idênticos para a maioria das operações. A impressão que se tem é de que o Mercurial é um Subversion com push e pull.
À primeira vista, parece que o Mercurial precisa de mais comandos para fazer a mesma coisa que se faz no Subversion. A razão disso, e que só é mostrado quando se vê o grafo de revisões, é que cada desenvolvedor trabalha em uma linha independente, equivalente a um ramo privativo, no qual pode publicar suas revisões sem a obrigatoriedade de mesclar com outra revisão a cada etapa, que é o que acontece no Subversion. O resultado é um fluxo de trabalho ainda melhor que no modelo centralizado.
No Mercurial, e em DVCS em geral, todo desenvolvedor trabalha naturalmente em um ramo privativo. O mesmo resultado poderia ser obtido no Subversion definindo-se ramos privativos para cada desenvolvedor a cada tarefa, bug etc. a ser implementado. Quem já usou ou tentou usar uma solução assim no Subversion, sabe quanto é trabalhoso e complicado fazer isso.
Livros de programação disponíveis para download
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Lançada a versão 1.5 do Mercurial e a versão 1.0 do TortoiseHg
Mercurial continua evoluindo em ritmo firme e constante. Chega agora a versão 1.5 com diversas melhorias no núcleo, extensões, interface web, Windows e documentação. A lista completa está disponível neste link mas aí vão alguns destaques:
- Melhoria no comportamento do comando heads para ramos nomeados.
- Nova opção -b/--branch para definir um ramo específico para os comandos clone, bundle, incoming, outgoing, pull e push.
- Suporte a certificados de servidor SSL e melhoria no suporte a IPv6
- subrepos agora com suporte básico ao Subversion. Subrepos é uma área do Mercurial que tem evoluído bastante. O objetivo é tratar um repositório e seus subrepositórios como um grupo, tal como é feito no Subversion com o svn:externals.
- Suporte a plugins de autorização.
- Adição de script WSGI para IIS isapi-wsgi
A atualização de versão é recomendada a todos os usuários.
Para quem usa Linux e linha de comando, a melhor forma de instalar continua sendo o easy_install, ao invés dos pacotes da distribuição Linux. Note que o Mercurial precisa compilar umas partes escritas em C e por isso precisa do pacote python-dev. A seguir os comandos necessários para instalar o Mercurial no Ubuntu:
sudo apt-get install python-setuptools python-dev sudo easy_install Mercurial
Para quem usa Windows, a melhor opção é instalar pelo TortoiseHg, que já instala o Mercurial automaticamente.
TortoiseHg 1.0
O TortoiseHg também está com versão nova: versão 1.0. O pacote de instalação pode ser obtido a partir deste link.
O TortoiseHg também funciona no Linux, e ajuda bastante em algumas operações tais como visualização de diferenças e do histórico de log, que são ruins de ver pela linha de comando só usando o hg diff ou hg log por exemplo. A não ser que você use o Gnome/Nautilus, com o qual se integra, a ativação do TortoiseHg no Linux é ser feita pela linha de comando usando o comando hgtk e seus subcomandos.
A instalação do TortoiseHg no Linux pode ser feita pelos pacotes da distribuição ou pelo easy_install:
sudo easy_install http://bitbucket.org/tortoisehg/targz/downloads/tortoisehg-1.0.tar.gz
Controle de Mudança Distribuído é necessário?
Controle de mudança distribuído (Distributed Bug Tracking – DBT) parece ser um complemento natural para o controle de versão distribuído (DVCS – Distributed Version Control Systems); o desenvolvedor trabalharia de modo autônomo em seus tickets e depois sincronizaria com os outros desenvolvedores, da mesma forma que faz com o DVCS.
Projetos open source de DVCS começaram a aparecer em 2005 e vêm se tornando cada vez mais populares a cada dia, particularmente o Mercurial e o Git. Mas é curioso notar que não há nenhum projeto de DBT de renome, nem tem aparecido variações ou extensões de ferramentas centralizadas que as tornem distribuídas. Algumas tentativas de produzir um DBT não prosperaram; os projetos se encontram parados ou se tornaram apenas uma prova de conceito, sem conseguir grande aceitação:
- Bugs Everywhere. Embora a página do projeto tenha sido revisada em 06/02/2010, o projeto parece abandonado, documentação inexistente e o link para o código fonte do projeto está quebrado (pelo menos no momento em que esse artigo está sendo escrito).
- DisTract. Parado desde 2007.
- DITrack. Abandonado em junho de 2008
- Ditz. Parado desde novembro de 2008.
- TicGit. Tem tido alguma atividade recente.
- Fossil. Controle integrado de versão e de mudança distribuído. Não é baseado em nenhuma outra ferramenta distribuída já existente tal como o Mercurial. Vem sendo produzido ativamente.
Por que o Controle de Mudança Distribuído não Vingou?
O fato é que controle de versão é uma ferramenta para o programador, mas o controle de mudança é uma ferramenta para o projeto.
O controle de mudança tem o papel de aglutinar as necessidades do projeto, coordenar os esforços dos desenvolvedores e direcionar a evolução do projeto. É uma ferramenta de comunicação e colaboração entre desenvolvedores que funciona melhor de modo centralizado.
Imagine uma situação em que toda a equipe use um DBT. Cada desenvolvedor cria seus próprios tickets, páginas wiki, define milestones e organiza suas prioridades. Como juntar depois todas essas informações de uma maneira coerente para o projeto? Quem definiria as prioridades?
A facilidade de criar e editar tickets offline não compensa a complicação que um DBT introduziria no processo de desenvolvimento. Embora um DBT seja tecnicamente interessante, é uma aplicação procurando uma necessidade para preencher.
Acredito que o controle de versão vai caminhar para o modelo distribuído, mas o controle de mudança permanecerá centralizado.
Links Relacionados
- DVCS and Bug Tracking.
- http://community.livejournal.com/evan_tech/248736.html
- http://dist-bugs.kitenet.net/software/. Uma lista mais completa de ferramentas de DBT.
Codeplex passa a usar Mercurial como controle de versão padrão
Codeplex é um portal da Microsoft para hospedagem de projetos open source, similar ao SourceForge e Google Code. Conforme anunciado, o Codeplex agora passa a suportar nativamente o Mercurial como controle de versão (a outra opção é o TeamSource, da própria Microsoft).
Entre os motivos apontados para a escolha do Mercurial, está a popularidade da ferramenta e o ótimo suporte ao Windows, o que é particularmente importante para o Codeplex, claro.
Sem entrar nos méritos da combinação Microsoft e open source, o fato é que o Mercurial vem sendo usado cada vez mais por provedores de hospedagem de projetos. Os próprios SourceForge e Google Code já oferecem suporte ao Mercurial.


